Notícia
1/3/2022

Enchentes suspeitas: Estudo encontra elementos tóxicos em rios

Estudo encontra elementos tóxicos em rios próximos a mineradoras após enchentes

Pesquisadores suspeitam que material possa estar sendo despejado nos rios durante as enxurradas por negligência das empresas

Água que causa coceira e diarreia, lama com cheiro de óleo que quando seca parece cimento. Dados inéditos de um estudo realizado por pesquisadores mineiros e de outros estados, com apoio do Núcleo de Análise de Resíduos e de Pesticidas da Universidade Federal do Maranhão, revelam que a água que chegou até alguns rios de Minas Gerais com as enchentes de janeiro contém elementos químicos como arsênio, ferro, manganês e chumbo acima dos valores máximos permitidos nas legislações vigentes para qualidade da água.

Essas substâncias são comuns em rejeitos do beneficiamento de minério e em excesso podem causar danos à saúde. Ao serem identificadas em rios próximos a mineradoras, levantam suspeitas de que esse material possa estar sendo despejado nos rios por negligência das empresas.

As amostras de água foram coletadas nos dias 16, 17 e 28 de janeiro nas cidades e nos distritos de Piedade do Paraopeba (Brumadinho), Nova Lima, Macacos (São Sebastião das Águas Claras), Rio Acima, Honório Bicalho e Raposos e em São Joaquim de Bicas. Os rios cujas águas foram analisadas pertencem à bacia do rio Paraopeba e à bacia do rio das Velhas, ambas parte do quadrilátero ferrífero-aquífero, região onde se concentra grande parte das barragens de mineração do estado. Uma outra fase da pesquisa vai analisar também o que há no solo vindo dessas enchentes e contará com amostras vindas de João Monlevade (rios Santa Bárbara e Piracicaba), Rio Piracicaba, Nova Era entre outras.

“O cheiro, a textura e a cor da lama e da água já indicavam uma quantidade significativa de elementos que poderiam ser metais e metaloides tóxicos”, explica a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Dulce Maria Pereira, uma das responsáveis pelo estudo. Segundo ela, esses materiais existem de forma natural, mas situações como atividade minerária podem inseri-los nos solos e rios e causar a contaminação das águas e da superfície no entorno. “Há uma mudança significativa que é o resultado de várias interações físico-químicas, e o que se tem ali está longe da normalidade do material de uma lama normal, que se encontra na natureza, sobretudo nos rios.”

Água tóxica

Após a análise química da água, os pesquisadores encontraram ferro, manganês e estanho em todas as amostras e arsênio, chumbo e zinco em parte delas. As quantidades de arsênio, ferro, manganês e chumbo ultrapassaram os valores máximos permitidos pela Deliberação Normativa do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam 01/2008) e pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos de Minas Gerais.

O geólogo Paulo Rodrigues, do Pesquisa em Educação, Mineração e Território (EduMiTe), que também participou do estudo, explica que o teor do minério de ferro exigido no mercado internacional é alto e muitas áreas mineradoras já não atingem esses dados naturalmente, sendo necessário um processo de beneficiamento para a “elevação forçada dos teores”, que envolve o uso de produtos tóxicos e eventualmente libera elementos tóxicos do próprio material beneficiado.

“O que é interessante para a mineradora? É a venda do produto beneficiado. Isso dá dinheiro. O rejeito dá despesa. É o passivo ambiental. Então, para essas empresas, quanto menos tiver que investir na segurança do rejeito, melhor!”, afirma Rodrigues.

Ao demonstrar a presença dessas substâncias nos rios após as enchentes, os resultados das análises químicas das amostras também indicam, segundo pesquisadores, uma possível negligência das mineradoras ao não monitorarem os efeitos das fortes chuvas em suas barragens, permitindo a descida para os rios de rejeitos de minério de ferro e de outros materiais possivelmente tóxicos.

De acordo com o coordenador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Marcelo Seluchi, as chuvas, apesar de fortes, estão dentro do esperado para a região nesta época — a tendência, no entanto, é que, com o aumento da temperatura e a intensificação das mudanças climáticas, eventos como esses se tornem cada vez mais frequentes.

Após a enchente, várias empresas alegaram que “choveu demais e que não estavam preparadas; então aconteceram todos esses problemas”, critica o engenheiro e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Bruno Milanez, que há anos acompanha a situação das barragens no estado. “O que a gente viu acontecer parece ser mais uma falta de preparo das mineradoras para a situação e que as mineradoras estão querendo colocar os problemas na conta dos eventos extremos.”

Para o pesquisador do Instituto Federal de Minas Gerais Daniel Neri, que estuda conflitos socioambientais no quadrilátero ferrífero, se for comprovado que existe algo nas águas ou no solo após as enchentes que exponha as pessoas a situações de adoecimento, a polícia ambiental, os órgãos de licenciamento e a própria Agência Nacional de Mineração (ANM) precisam ser acionadas.

ANM

Em nota, a ANM afirmou realizar “visitas de vistoria e acompanhamento dos empreendimentos minerários, avaliando as condições e fazendo exigências quando verificadas situações anômalas”, mas que a análise de água e outros materiais é uma atribuição específica dos órgãos ambientais.

No caminho da lama

No mapeamento do Sistema de Gestão de Segurança de Barragem de Mineração (SIGBM) da ANM, é possível identificar que a maior parte das barragens em Minas Gerais está dentro do quadrilátero ferrífero-aquífero. Ou seja, na mesma região onde se concentra grande parte das barragens de mineração há, também, importantes bacias hidrográficas, como as bacias do Rio Doce, das Velhas e do Paraopeba, Piracicaba, com seus rios e afluentes — não por acaso, rios em que foram encontradas amostras de água contaminada. “O caminho da lama é o caminho dos rios. E o caminho da lama também mostra a questão da segurança hídrica, lembrando que as bacias do rio Doce e Paraopeba já sofreram impactos com desastres de barragens da Samarco, em Mariana, e Vale, em Brumadinho”, frisa a pesquisadora Daniela Campolina, do EduMiTe, que também participou do estudo.

Em outros municípios atingidos pelas chuvas, mais pessoas integraram uma rede de coleta inédita de solo pós-enchente, que ajudou os pesquisadores — a coleta da água foi feita exclusivamente pelos especialistas. Segundo os organizadores da força-tarefa de pesquisa, foram recolhidas amostras de 63 pontos que tiveram suas coordenadas confirmadas por GPS.

“O que chama a atenção é que a população ribeirinha disse que o cheiro da lama parece de óleo”, diz Geraldo Magela Gonçalves, jornalista e conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba, que também participou como voluntário da força-tarefa de recolhimento das amostras. “Logo após a cheia, locais onde havia plantações simplesmente secaram, matou tudo.”

Ele conta que normalmente, quando há uma cheia, o rio vai baixando e vai “lavando” a lama que ficou pelo caminho. “Só que dessa vez esse material praticamente cimentou. Em João Monlevade [município na bacia do rio Piracicaba], o pessoal teve que levar um caminhão com bomba de alta pressão para desobstruir os bueiros”.

Estudo

A rede que recolheu as amostras de água e de solo é coordenada e composta pelos pesquisadores Dulce Pereira, ex- diplomata e professora da UFOP, coordenador do Núcleo de análises de resíduos e pesticidas, Ulisses Nascimento da UFMA; Daniela Campolina, Paulo Rodrigues e Lussandra Gianasi do Pesquisa em Educação, Mineração e Território (EduMiTe); professora Adriana Monteiro do Laboratório de Solos e Meio Ambiente da UFMG; Luciano Corrêa integrante do MovSAM e integrantes do Projeto Manuelzão da UFMG. Parte dos recursos para viabilizar os estudos veio do gabinete da Deputada Federal Área Carolina do PSOL.